sábado, 7 de junho de 2014

Teatro da Garagem I


Está mais frio do que pensei que ia ficar... esteve assim o dia todo e quanto mais penso nisso mais a minha constipação se apercebe.

Convirjo pensamentos pelas ruas graffitadas com paisagens da cidade. Parecem os temidos "terroristas urbanos" ter mais apreço pelas vielas do que a Câmara Municipal.

Passo pelas bandeiras vermelhas que servem de despertador à minha consciência e anuncio-me à entrada. O tropeção que fiz ecoar pelo hall recorda-me que trazia a mochila às costas.

O Securita de serviço faz um esforço por não se rir e espera que o comprimente.

- Boa Tarde...
- "Btard"

Desço o mais hirto possível pelos dois andares de exposição que já conheço de cor. Não diria ainda de olhos fechados, mas hoje também não é dia para essa aventura.  Hoje não sou o único por aqui. Há barulho a mais lá em baixo, palmas a par de gargalhadas e tilintar de copos ocasionais.

Som de festa, som de vida e alegria - Logo hoje que tinha amarras na alma para arrancar a ferros e frases Saturninas.... Julgo que não deveria ter escolhido um Sábado nesse caso.

Suspiro e deixo os ferros quentes à entrada.  

domingo, 20 de abril de 2014

Show Must Go On



Passaram já 8 meses desde que terminei o contrato que me vinculava à família Disney.

Esgotaram-se as perguntas e a curiosidade acerca dessa "minha grande aventura". Já todos me perguntaram como foi. 


Não dei uma única resposta decente. 

Na tentativa de manter a honestidade de cada resposta, obriguei-me a não ter nenhuma formatada e a analisar a experiência e como eu a via naquele preciso momento. 


Todas as respostas me deixaram na boca um sabor amargo a injustiça. 

Deixei sempre "alguma coisa" por dizer. Um "alguma coisa" que agora, que as cores se deixaram esbater e os cheiros são difíceis de recordar, não tem assim tanta importância. 


É no entanto a mesma "alguma coisa" que na pele que vestia então, era de importância capital. 

E assim mantive-me curto. Curto e injusto por falta de opção.  

sábado, 16 de novembro de 2013

Little Dreams




A sala estava vazia.

Chegámos nós, executantes, à hora marcada. Não fosse o nervosismo que se deixa ver pelos sorrisos que trocamos em silêncio, seria outro dia igual a tantos outros no Studio Sea. As paredes, pouco reveladoras à meia luz, contêm na multidão de esboços alguns dos espectadores mais difíceis do mundo. Atentos no no papel de parede estas personagens Disney já viram de tudo nos últimos 15 anos. No entanto são simpáticos o suficiente para deixar as cerca de 35 mesas e 120/140 lugares sentados vagos, em cadeiras de realizador. Lugares vãos, acrescente-se, uma vez que somos cerca de 1000 tripulantes. Não terão todos a disponibilidade ( ou a vontade) de vir hoje mas, uma vez que se trata do último espectáculo exclusivo para a tripulação a ser feito neste espaço emblemático, esperamos que pelo menos metade encontre tempo e disposição.


Os cocktails criados especialmente para o efeito ajudam.


Os passos apressam-se, termos montado um espectáculo de 7 actos, sem paragens, sem que nunca tenhamos tentado um ensaio conjunto..... define uma linha muito fina entre um espírito empreendedor embebido de uma enorme força de vontade... e uma enorme e redonda estupidez. Em saudação da verdade, a partir do 3º acto, não faço a mais pequena ideia do que aí vem. No que me diz respeito, cabe-me a responsabilidade da abertura do espectáculo, a solo. Responsabilidade que aceitei apenas para ajudar um "algém" de quem gosto muito e que se sentia demasiado intimidado para o fazer.... confesso que não foi uma escolha pensada (Raio de sensibilidade a minha).

Este facto seria suficiente para que neste momento a minha contagem de batimentos cardíacos não fosse a mais homogénea que me vem à memória mas, como não sei limitar os ataques de verborreia que por vezes me assolam e fazem com que da minha boca jorrem pacotes de disponibilidade instantânea, entro em mais dois números musicais.... SEGUIDOS!

Assim só necessito de me esbardalhar ( expressão magnífica esta não é?.. .esbradarlhar... gosto) no 1º acto a solo para encavalitar os outros dois!

Sejamos objectivos:

Cadeira - check
Suporte - check
Microfone - check
Luna - check
Cabo - check

Tenho tudo, abram-se as portas e "fiat lux".

A fila impedia já a circulação dos elevadores 2 andares abaixo. Esqueci-me da estimativa que fiz e perdi-me na contagem de cabeças. 20 minutos depois já estamos cheios. Bebidas circulam quase com a mesma velocidade que os comentários aos vestidos das "outras"... uma cereja que faltava no topo do bolo dos 7 actos... espírito crítico.

- Vamos começar? - Pergunta o Rodolfo. Faço um sorriso com meia vontade e aceno com a cabeça

- "Vamos lá ver como é que é para contar como é que foi" - Neste momento de aperto não me ocorreu mais nenhuma frase de distribuição automática.


Empurro a porta que não me recordo de ser tão pesada e ouço a voz do Rodolfo ampliada no sistema de som. Esforça-se por fazer atingir o clímax na multidão expectante que me espera do outro lado. O cheiro a backstage enche-me as narinas. É um cheiro difícil de descrever e esforço-me ao máximo para o colocar numa das prateleiras principais da minha memória. É uma mescla compreendida entre o mofo, o pó e o carbono da madeira que sei que mais tarde vai simbolizar um momento na minha vida. Faço uma oração enquanto ouço a apresentação no sistema de som, que me lança lá fora tal gladiador aclamado. Lanço as mãos à cortina e faço um ar confiante, de quem faz isto todos os dias.... esqueci-me do sorriso nos bastidores. Ficou ao lado do génio que gritava aos ouvidos mensagens de medo e pânico.

Aceno ao infinito. Com as luzes apontadas a mim de facto não consigo distinguir ninguém.

Luna ao colo, ajeito o microfone e tento ganhar tempo com afinações mínimas na guitarra que pela forma como treme está tão nervosa quanto eu. Resolvo lançar uma piada para quebrar o gelo.... o meu. Em jeito de kickstart, as mãos ganham vida e começam a tocar a música em tempo certo... agora já não posso voltar a trás.

O tempo está a chegar... aproximo a boca do microfone.

Aquele momento em que tudo se move mais lento... tudo o que ouço é a minha pulsação e a minha última respiração ampliada no sistema de som.






Começou.







segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Planes



Ja vi o filme!!!

Estou cansado e tenho andado nos últimos dias a tentar não quebrar a regra que não nos permite trabalhar mais de 14 horas diárias. Por mais estúpido que possa parecer, se isso aocntecer a responsabilidade é-nos reportada e não aos nossos Líderes ( aos que merecem tal tíltulo) e, ultimamente, poderá mesmo levar a despedimento.

Rídículo mas verdade. Para que possam ter aí uma ideia do quanto tenho trabalhado, nos últimos dois dias não quebrei o POB ( essa regra estabelecia) por menos de 15 minutos.

Voltando ao filme, tem uns pormenores interssantes. Tem umas piadas estritamente aeronáuticas e apresenta muito poucas falhas. Curioso também que me recordo de na altura ter reparado nessas mesmas falhas, mas agora que me esforço por recordar..... já não me lembro quais eram... o que remete a minha sensação para o facto de que provavelmente não seriam muito graves.

Notei também que era a  única pessoa no cinema a mover constantemente a cabeça para compensar os ângulos de câmara nas voltas mais apertadas.... old habits die hard...

Enfim, aconselho...

Reavivei a minha saudade de voar e o meu desejo de um dia me ver aos comandos de um Spitfire da 2a guerra mundial.... (suspiro)

Quando for grande suponho..

Abreijos
É uma semi-continuação do filme Cars, nascido também da parceria Disney - Pixar.



http://www.youtube.com/watch?v=3KumjBXHdzY

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Veneza By Night


Apresso-me no trabalho. 

Com o navio atracado em Veneza pela noite, devem haver poucos clientes a bordo... porque é que demoramos tanto tempo a encerrar? 

Corro de um lado para o outro, suo no meu novo e ridículo uniforme tentando apressar a tão desejada saída do navio. Tenho três pessoas à minha espera e odeio fazer-me esperar. 

Faltando paciência para aguardar pelo elevador, desço três andares mais pelos corrimões do que pelos degraus e entro na cabine 9660. Confirma-se a minha preocupação. 

O Rodolfo joga playstation já de cabelo ajeitado na direcção do costume, talvez com um pouco mais de gel para aprimorar a ocasião. 

Sem tempo para banhos então.

Vesti a túnica mais apropriada ao romantismo dos canais, molhei o cabelo ( este contrato recusei-me a moldá-lo com qualquer espécie de fixante) e telefonámos à Carissa para que viesse ao nosso encontro com a Caroline.  

Respirei fundo. Ao que parece não só não havia pressa para sair, como queriam passar para um copo de vinho antes de nos fazemos ao caminho.

Batem as 23:30 e decido-me por não levar casaco sob a premissa do Rodolfo de que ele já levava um e que tinha a Carissa para o aquecer. Para frustração dos dois, é um cenário que não se espelha com a Caroline, mas aceito de bom grado o casaco e o argumento, se necessário.

Dos quatro, apenas Caroline domina o Italiano. Fruto de um ano em intercâmbio que recorda com mais saudades do que aquelas que expressa. Preocupa-se em não se tronar aborrecida e a gerência agradece. 

Saímos do grande e enclausurante Disney Magic e somos abraçados pelo calor abafador de Veneza. Ainda não se cheiram os canais daqui mas já gondoleamos mais do que andamos pelo alcatrão do porto. 

Todos os tripulantes pelos quais passamos vêm na direcção inversa: "Está tudo fechado" - acautelam-nos repetidamente.

Já nos haviam avisado antes. O que me fez vir com este pequeno e selecto grupo foi precisamente o facto de nenhum de nós se importar com isso. Não viemos a Veneza para nos embrenharmos nos flashes incessantes e no barulho silenciador dos clubes locais, cheios da mesma tripulação pela qual passamos diariamente.

Num raso de loucura espontânea íamos a Veneza para ver Veneza... A cidade não encerra só porque não nos é disposto o comércio turístico e os tours demasiado caros e objectivos. E o resultado desse desprendimento de objectivo a cumprir ou do percurso em si não poderia ter sido melhor.

A cidade tem um encanto especial pela noite. Não só pelo desertismo das ruas e dos canais ou pelo silêncio, pontuado com um grupo ou outro de jovens locais que apreciam vinhos e conversas nos inúmeros cais espalhados pelas margens. Essencialmente pela ausência de pressa para coisa alguma. A liberdade de se fazer o que se quizer, agora ou quando nos apetecer, por onde for. 

É no entanto um local de extremos. 

Paria no ar uma guerra sintomática: O secretismo labiríntico das ruas estreitas e dos canais quietos de um lado. A ordem gritada à rectidão dos edifícios estatais e o eco que reflecte no enorme vazio das praças outro.

As conversas prolongam-se por horas. Os assuntos sempre frescos e ambulantes, renovados a cada ponte que atravessamos. 

Curiosas edificações, essas a quem chamamos de pontes. ..
Um elo de conexão em caso todo, nem terrenas nem astrais, tão práticas quanto litúrgicas.
Feminidade perfeita no engenho da ligação.















Chegamos à altura de decisões. Recito Mind da Gap por instinto "bazamos ou ficamos?"

Seguem-se opiniões parcas e pouco concisas.

"Por mais um par de horas vemos o nascer do sol em Veneza"  - Intervenho de novo. 

Contaram-se os sorrisos e a decisão foi unânime. 

Seguiu-se um dia arrastado e de olheiras sombreadas sob as horas mais longas.

Mas compensou largamente. 

Abreijos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Disney na Forbes Magazine




America's n.º1 Reputable Company.... de acordo com a Forbes Magazine. 

O Rato não brinca em serviço ; ) 

domingo, 4 de agosto de 2013

Napoli

Nápoles é suja, caótica e tem muito pouca consideração para com a vida humana no geral. 

Foram estes os traços gerais da cidade que moldaram a opinião das pessoas com quem procurei alguma espécie de direcção ou sugestão. 

Assim saí, solitário, e determinado à aventura. Comigo, trago apenas o computador às costas, uma bolsa com uma dose generosa de atenção ao trânsito e poucas expectativas no bolso ( no da frente porque os panfletos dizem que o de trás é mais fácil de roubar). Não estavam ainda à vista as ruas costeiras de Nápoles quando na porta de embarque me cruzo com uma das poucas Portuguesas a bordo. Alguém com quem nem me cruzo muitas vezes.

Confessou-me ser vegetariana há mais de 18 anos e que tinha encontrado um restaurante vegetariano na sua última passagem, que se situava na parte mais alta da cidade, a cerca de 25 min a pé... convidou-me para acompanhar. Isto caso não me importasse de andar tanto e por bairros mais degradados - Tipo bairro alto - diz ela. 

Claramente não me conhece...

Mudança súbita de planos e aqui vamos nós... 

Dificilmente podia ter corrido melhor. Acontece que acabei por acompanhar a Susana na celebração do seu 3º aniversário com a Disney. Uma celebração originalmente destinada à solitária.

Ruminámos duas doses de filetes de seitan marinado em limão e vinho branco num restaurante acolhedor, de tons rústicos, em jeito de mercearia. O serviço era cru e desenrascado. Talvez não noutra circunstância, mas sabe bem ver o empregado de mesa servir o pão com as mãos... uma espécie de sentimento mais doce que acre pelo contraste com os níveis de serviço que somos obrigados a obedecer a cada minuto a bordo.

O bairro de facto assemelha-se em vários aspectos ao bairro alto. Não só pelas ruas estreitas e desprovidas de carros. Também pelas lojas mais criativas do que abençoadas com fundos de maneio, escondidas entre portas de prédios.... e quem me conhece sabe que tenho um fraquinho por coisas escondidas. 

Em resumo, refuto tudo quando me disseram da cidade. Existe sim imensa arquitectura vandalizada, o transito é caótico e a sujidade na rua abunda.... mas não é esse o standard das grandes cidades da Europa neste momento? Será a nossa Lisboa assim tão diferente? Não passa de uma cidade maravilhosa  e mal aproveitada. 

Gostei e aconselho.
Aconselho também que não tentem ver a cidade pelos olhos dos outros... copo meio cheio ou meio vazio... é uma questão de perspectiva.



Abreijos.