segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mr. Keith



Conheci-o no início do cruzeiro, há coisa de dois dias. Ou noites neste caso. 

Deixou claro que tinha uma carência de atenção. Lacuna que preencheria com Vodka Rocks desse minuto em diante. Pouco expansivo ou sequer conversador, sempre se apresentou simpático. De sorriso pronto e o primeiro, note-se, a estender a mão já torta, tal peso têm as lições de vida.

Retribuí o aperto. "Com firmeza, há quem julgue assim o carácter de uma pessoa" diriam os meus avôs se por cá os conseguisse ouvir.

Hoje dei por ele, sozinho como de costume até agora, a sorrir e acenar descompassadamente. Ou seria a banda que não acompanhava o batuque grisalho da primeira fila?

 - "Posso trazer-lhe alguma coisa para beber Mr Keith?"

A pergunta saiu-me mais automática do que deveria, tendo em atenção o caso. Defeito profissional, chamemos-lhe assim. 
O arrependimento veio quando dirigiu o seu vidrado olhar na minha direcção. E me alcançou a nuca. O tipo de velocidade que não assusta, mas não é lento que baste para fugir.

 - "Queres ser meu amigo?"

Ignorei o alarme que soava na minha cabeça e tentei reagir o mais simpaticamente que me foi possível...

 - " Mr Keith, claro que somos amigos..."

A resposta que precisava de ouvir... resultou como que um gatilho para que o seu braço tentasse encurtar a distância que nos separava. Tentei mais uma vez não perceber a intenção por de tras desta investida. Mantive-me firme. Mas era impossível negar que a proximidade física seria no mínimo constrangedora. 

Contraponho-me  ao que penso não ter sido a sua total força.

Dada a nossa proximidade e o terreno que ganhou com a investida, resolvi transformar a situação num abraço. Duas palmadinhas nas costas e tento-me afastar de novo ainda com a nuca como refém. 

 - " Queres ser meu amigo?" - Pergunta de novo.

 - "Mas já somos amigos Mr Keith..."

 - " Queres vir ao meu quarto?"

Raios com as minhas tentativas de ver o mundo são. Merda com a visão de ternura estereotipada que tenho para com o sujeito que está à minha frente, com idade para ser meu avô. Lixo com a inocência que tento ver no fundo de cada situação. 

Resolvi-me educadamente e não lhe disferi uma palavra mais que fosse. 

Depois de ter dormido durante dois set lists da banda e do guitarrista a bordo, decidiu tentar levantar-se. 

Decisão perfeita. Execução desastrosa. 

Um Manager e uma cadeira de rodas depois, estou curioso para saber se aparecerá amanhã. 

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Lego Houses


Uma vez ultrapassados os 64 graus Norte de latitude, existe um pormenor comum a todos os países que tenho visitado: 



Contrariamente ao que se possa pensar a diversidade de cores não se deve a nenhuma tentativa de tornar as vilas portuárias de alguma forma mais atractivas turisticamente.

Acima desta latitude vive uma escassa fatia da nossa população. Ainda que em pequenos aglomerados, a necessidade de cobrir grandes espaços obriga a que estes surtos populacionais sejam relativamente pequenos.  O que por sua vez torna as comunidades delicadas e de equilíbrio ténue. Mas essencial.

De ter em conta que uma grande percentagem dos habitantes não são locais. Destacados de vários cantos do mundo, são cientistas, engenheiros climatologistas polares, empregados em empresas de mercadoria e técnicos navais, entre outros. 

Um cenário que pouco os une e nada ajuda ao factor principal: seis meses por ano não se vê o sol mais que um par de horas a cada 24.

É obrigatório assim que as casas sejam coloridas. Uma influência psicológica motivadora para o enfrentar do dia a dia. Uma pseudo-felicidade embutida pelos olhos a dentro. Mas que aparentemente funciona. 

Em conjunto com leis de restrição alcoólica, um escape comum a situações depressivas ou de pressão social.

domingo, 31 de agosto de 2014

Dublin


Caros Leitores: Obrigado aos três. 

Planeei este texto uma dúzia de vezes. 
Preocupa-me a imagem que têm de mim e a vossa assiduidade neste blog. 

Por esse motivo não vos quero descrever a minha estadia em Dublin. Posso adjectivá-la como divertida e nefasta. 

Salva-se um momento no entanto, que para além da realização de um sonho conturbado, foi o meu momento alto da noite. 

Agradecimentos ao Sr Alcool, ao Josh na voz, e ao Juan Carlos, que tinha conhecido há 30 segundos e que foi simpático o suficiente para abdicar do seu lugar nas ruas de Dublin, da sua guitarra desafinada e com 5 cordas apenas para que esta pérola se tenha criado.


Thanks Josh

domingo, 24 de agosto de 2014

Paamiut e Iulissat - Cancelados.


Os dias a bordo de qualquer cruzeiro são divididos em duas categorias: Sea days e Port days. 

Os segundos apresentam-se naturalmente mais descontraídos. Não apenas pela possibilidade de sair um pouco e visitar algo que não tenhamos visto antes, mas também, na eventualidade de sermos obrigados a ficar a bordo, por o trabalho ser forçosamente menos pesado. Existem menos passageiros para servir. As tarefas recaem mais em serviços de backstage, limpezas, inventários, polimentos etc. 

É por isso naturalmente frustrante quando um porto é cancelado, como foi o caso dos dois últimos: Paamiut e Iulissat. Sendo que estes eram antecedidos e espaçados de um Sea day, significa que temos 4 sea days seguidos, o que nos deixa a todos insatisfeitos. 

É visível uma alterção em ambas as partes: passageiros e tripulação. OS passageiros notam-se mais exigentes e picuínhas ( não encontro expressão melhor), alguns embebedam-se mais que o costume, alguns tornam-se simplesmente maçadores como que por vontade de aliviar o seu aborrecimento por osmose. 

Na tripulação os tons da aguarela mudam um pouco. A diferença deste lado nota-se pela impaciência geral, stress, resmunguice e em caso último na explosão de uma ou outra discussão que com tantos factores pode tomar proporções indesejadas. 

A idade média da tripulação é um factor também a ponderar. A companhia alimenta-se de tripulação por norma jovem e mais perita em obedecer a ordens de forma rápida, do que a pensar realmente no que faz. Alguns de nós estavam mesmo escondidos atrás de um calhau quando Deus nosso senhor distribuíu a paciência ao mundo.



Eu tive a sorte de estar nas primeiras filas. 

Abreijos. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ikerssuaq







O estreito de Ikerssuaq separa a Gronelândia continental de Sagmissoq ( a ilha do Príncipe Christian). Conecta o Mar Labrador com o mar Irmingher, mede cerca de 100km e chega a não ter mais de 500m de largura. Existe apenas um pópulo de povoação ao longo do estreito, Aappilattoq. Quase invisível de tão pequeno.

Nos passos dos Vikings de há mais de mil anos, transitam navios por este pedaço de mar, não mais que 3 meses por ano. Altura única e aproximada em que é metereologicamente possível atravessar. Evitam-se nessa janela de tempo as correntes ínfames e características dos cabos sul da Gronelândia.  

Queria acrescentar-vos também que na minha pesquisa por informação tentei encontrar-vos no google uma fotografia característica... mas a que tirei com o meu telemóvel, que vêm acima, continua a ser a melhor das poucas que vi. É um caminho gracejado por aves curiosas e icebergs, os segundos em maior proporção. 


Fortuna nórdica, mas de passagem. 

Abreijos

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Iceland - Blue Lagoon



Dizem as estatísticas que o povo Islandês é o mais feliz com a vida que leva. Se este estudo tivesse ocorrido em Portugal, diria facilmente que se devia provavelmente ao clima, proximidade da natureza, no seu auge campestre e marítimo, dieta mediterrânica, gente bonita. 


Por estas latitudes, devem misturar qualquer coisa na água canalizada... 

À parte do esforço insular que possa existir, eventualmente o fumentar de um espírito comunitário, não vejo razão aparente para que a estatística se confirme. Saio daqui com uma noção geral de que decidimos ocupar este calhau vulcânico cedo demais. Nada, mas absolutamente nada aqui é fonte de vida. À excepção de fontes termais, tudo quanto se avista é rocha vulcânica. E a única fonte de verde é o musgo que a cobre. 

As fontes termais são tornadas em atracções turísticas e spa's, sendo que a mais conhecida é a Lagoa Azul - Blue Lagoon.

Nas fotos que vos deixo, nada foi alterado na coloração. A cor da água deve-se ao alto teor em sílica, que publicitam ser bom para a pele ( nem poderiam fazer de outra forma). 

Fica também uma informação retirada de um guia turístico que encontrei na porta do táxi. Segundo esse pequeno ( e antigo) livrete, a Lagoa Azul consta das 25 maravilhas naturais do mundo, segundo a revista National Geographic.





Ainda assim não percebo por que raio serão felizes a esse ponto...

Abreijos

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

I AM STERDAM



  • Amiga em Asterdam; 
  • 20 minutos a pé do navio; 
  • O Google safou-me; 
  • Central Station; 
  • Spuistraat, 41;
  • Senhoras despidas em janelas de fundo vermelho; 
  • Vinho Portugês; 
  • Brownies da Maks and Spencers; 
  • Blue Moon Bar; 
  • Encontrar dinheiro no chão; 
  • Encontrar crew members por acaso; 
  • Rembrandt Square; 
  • De Kroon fechado; 
  • Nem morto entro no nasty club; 
  • Alternativas; 
  • Jazz Bar Underground; 
  • Era feliz a trabalhar aqui; 
  • Hamburguers rascos; 
  • Encontrar dinheiro no chão; 
  • Volta pelos canais; 
  • Visita à primeira bicicleta da Bruna que continua no mesmo sítio onde foi abandonada há meses. 
  • Dormida fora do navio em batalhas constantes com a gata da Bruna; 
  • Alergia; 
  • A melhor Overnight de sempre; 
  • Não paguei um copo; 
  • Drugs Free!!!









Achei que tinha sido uma noite demasiado longa para conseguir descrever todos os pormenores aos quais achei piada. Sei que podia viver aqui e que me vou com vontade de voltar. 

Obrigado Bruna, 
Abreijos.