domingo, 29 de junho de 2014

Seabourn Academy

Meus amores, 

Tenho algumas aventuras para vos contar mas estou a guardar-lhes a essência para que se lhes possa fazer alguma justiça literária. Existem pelo menos uma ou duas que valem a pena.

Deixo o posto de hoje reservado à Academia. Para quem não sabe, não fui contratado para começar a trabalhar de forma imediata. A forma mais rápida de me colocar a bordo da empresa que já me tinha aceite foi eu próprio, aceitar entrar num programa de treino e ambientação chamado de Seabourn Academy. Não havia motivo sério para recusar ou para me fazer de esquisito, é pago na mesma. E ajuda-me a ambientar. 

Como qualquer academia ou período de formação tem alunos, aulas, secas descomunais e avaliações. Essas sim, relevantes do dia em que são feitas em diante. 

Passada a primeira semana, fizemos dois testes escritos e fomos postos à prova em quase todas as áreas de trabalho possíveis. Recolhidas as opiniões de quem nos supervisiona ( Bartenders, Head Bartender; Soummelier e Beverage Manager) tivemos o resultado do primeiro terço de formação. 

Balanço positivo. 

Os Lusitanos da formação tiveram as melhores notas ( 30/30 e 27,5/30) nos dois testes e no que me diz respeito foi bastante bem avaliado pelos meus superiores. Têm soado alguns rumores de expectativas altas a meu respeito... o que me assusta particularmente. Enaltece-me o Ego na mesma medida que me polvilha de medo de não corresponder às mesmas. It's up to me though... Aliás, tem corrido tão bem que nos últimos dois dias a Soumellier do navio me tinha a trabalhar debaixo da sua alçada e não sabia que eu estava em período de treino. Berrou comigo ontem e hoje, sem motivo acrescente-se, e só no final do turno é que lhe caiu a ficha. Logo de seguida pediu-me desculpa e ordenou-me terminar o turno ( o qual já tinha excedido por uma hora). Ser tratado como os outros foi uma pequena vitória no segundo dia em que trabalho efectivamente. 

Em suma estou bem e tenho pensado em todos vós. Não tenho recolhido ímans e brindes pedidos por alguns porque ainda não me dei ao luxo de sair do navio. Questões burocráticas/horárias não têm ajudado. 

Abreijos

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ready Set Go!


"se o dia de hoje foi assim, estou curioso pelo amanhã"


Esta foi a frase com que terminei o meu último post - um dia aprendo a ficar de boca ( ou caneta) calada.

De acordo com os mails que vimos e revisitámos, o check out do Blue Radisson Hotel em Arlanda, Estocolmo estava programado para o meio dia, 12:00h

 - Não achas estranho? Na Disney embarcávamos cedíssimo... 
 - Deixa estar, assim posso ir à sauna de manhã!
 - Vais meter alarme para que horas? 
 - 09:00h?
 - 09:15h!
 - Ok! Até amanhã!
 - A televisão incomoda-te? 
 - A luz não, mas se puderes tirar o som ou pôr baixinho... 
 - Done! Até manhã!
 - Até amanhã. 

 - - - - - - Pausa para silêncio - - - - - - 

RRRRRRRRIIIIIIIINGGGGGGGGGG

 - Hello? 
 - Hi! This is the reception speaking... yout pick up is here! 

- OUR WHAT?! What time is it???

 - 08:30am Sir...
 - But...... the mail said.... never mind... could you please tell the pick up to wait 15 minutes?
 - Eeeerrrr...
 - Thanks! - DING 

Tenho quase a certeza que estabelecemos um novo recorde em tempo. 

º Acordar -  Check 
º Vestir -  Check
º Desfazer a barba -  Check
º Re-fazer a mala -  Check
º Reclamar do maldito email -  Check
º Praguejar -  Check

Tudo isto em  12 minutos.

º Desfazermo-nos em desculpas ao Sr de fato preto e engravatado que esperava por nós na recepção - Check
º Apercebermo-nos que afinal é só o taxista....


Check

sábado, 21 de junho de 2014

Kyssar från Sverige




Passa pouco da meia noite e não está escuro lá fora. A minha viagem para a Suécia veio acompanhada de uma torrente de bênçãos, uma delas é um pôr de sol que dura algumas horas a mais. 


É com este cenário que vos escrevo pela primeira vez, nesta segunda demanda de viagens desmedidas e em Deus querendo, bem mais tresloucada que a primeira. 

Convenhamos, o Mickey já não está por perto.... 

Estou cansado, mas com a sensação de que estou no sítio certo. Vinha com ideias de compensar um par de horas de sono durante o voo mas não foi possível. Deparei-me com um colega Português da Disney que vai embarcar comigo. 

Um T0 este mundo...

Partilhamos agora um quarto de Hotel em Arlanda e o sentimento de companheirismo que nos é tão característico fora-fronteiras.

Se hoje foi assim, estou curioso com o amanhã.

Abreijos.






quarta-feira, 18 de junho de 2014

Teatro da Garagem II



Todas as mesas estão "meio-ocupadas".  Perceba-se que a grande maioria das mesas estão dispostas em fila. Ocupa-se assim a metade virada à vista particularmente solarenga de hoje. 

Uma das melhores de Lisboa que conheço - da minha Lisboa.

Sobra um punhado de mesas interiores que ainda só notei serem ocupadas por elementos da casa. Ora a comer sorrateiramente fatias de Cheesecake, desfrutarem da pausa e da falta de clientes, ora de cabeça em mãos, a braços com dossiers de contabilidade. Pelo ar da coisa, não muito favorável.

Hoje levo comigo um pormenor novo. Os candeeiros que pendem sobre estas mesas são diferentes dos restantes. Parecem pequenos toques de capricho - "Nunca ninguém vai reparar nestas mesas qualquer das formas". Um apontamento requintado de malvadez, e pozinhos de belo por estar escondido. 

Sobre a mesa do canto pende uma Cartola - iluminada por dentro, entenda-se.

Tenho muito poucas oportunidades de fazer brilhar o cavalheirismo que tento manter em mim.  

 - Uma tosta de queijo, um copo de tinto, e o menu das ideias por favor.


sábado, 7 de junho de 2014

Teatro da Garagem I


Está mais frio do que pensei que ia ficar... esteve assim o dia todo e quanto mais penso nisso mais a minha constipação se apercebe.

Convirjo pensamentos pelas ruas graffitadas com paisagens da cidade. Parecem os temidos "terroristas urbanos" ter mais apreço pelas vielas do que a Câmara Municipal.

Passo pelas bandeiras vermelhas que servem de despertador à minha consciência e anuncio-me à entrada. O tropeção que fiz ecoar pelo hall recorda-me que trazia a mochila às costas.

O Securita de serviço faz um esforço por não se rir e espera que o comprimente.

- Boa Tarde...
- "Btard"

Desço o mais hirto possível pelos dois andares de exposição que já conheço de cor. Não diria ainda de olhos fechados, mas hoje também não é dia para essa aventura.  Hoje não sou o único por aqui. Há barulho a mais lá em baixo, palmas a par de gargalhadas e tilintar de copos ocasionais.

Som de festa, som de vida e alegria - Logo hoje que tinha amarras na alma para arrancar a ferros e frases Saturninas.... Julgo que não deveria ter escolhido um Sábado nesse caso.

Suspiro e deixo os ferros quentes à entrada.  

domingo, 20 de abril de 2014

Show Must Go On



Passaram já 8 meses desde que terminei o contrato que me vinculava à família Disney.

Esgotaram-se as perguntas e a curiosidade acerca dessa "minha grande aventura". Já todos me perguntaram como foi. 


Não dei uma única resposta decente. 

Na tentativa de manter a honestidade de cada resposta, obriguei-me a não ter nenhuma formatada e a analisar a experiência e como eu a via naquele preciso momento. 


Todas as respostas me deixaram na boca um sabor amargo a injustiça. 

Deixei sempre "alguma coisa" por dizer. Um "alguma coisa" que agora, que as cores se deixaram esbater e os cheiros são difíceis de recordar, não tem assim tanta importância. 


É no entanto a mesma "alguma coisa" que na pele que vestia então, era de importância capital. 

E assim mantive-me curto. Curto e injusto por falta de opção.  

sábado, 16 de novembro de 2013

Little Dreams




A sala estava vazia.

Chegámos nós, executantes, à hora marcada. Não fosse o nervosismo que se deixa ver pelos sorrisos que trocamos em silêncio, seria outro dia igual a tantos outros no Studio Sea. As paredes, pouco reveladoras à meia luz, contêm na multidão de esboços alguns dos espectadores mais difíceis do mundo. Atentos no no papel de parede estas personagens Disney já viram de tudo nos últimos 15 anos. No entanto são simpáticos o suficiente para deixar as cerca de 35 mesas e 120/140 lugares sentados vagos, em cadeiras de realizador. Lugares vãos, acrescente-se, uma vez que somos cerca de 1000 tripulantes. Não terão todos a disponibilidade ( ou a vontade) de vir hoje mas, uma vez que se trata do último espectáculo exclusivo para a tripulação a ser feito neste espaço emblemático, esperamos que pelo menos metade encontre tempo e disposição.


Os cocktails criados especialmente para o efeito ajudam.


Os passos apressam-se, termos montado um espectáculo de 7 actos, sem paragens, sem que nunca tenhamos tentado um ensaio conjunto..... define uma linha muito fina entre um espírito empreendedor embebido de uma enorme força de vontade... e uma enorme e redonda estupidez. Em saudação da verdade, a partir do 3º acto, não faço a mais pequena ideia do que aí vem. No que me diz respeito, cabe-me a responsabilidade da abertura do espectáculo, a solo. Responsabilidade que aceitei apenas para ajudar um "algém" de quem gosto muito e que se sentia demasiado intimidado para o fazer.... confesso que não foi uma escolha pensada (Raio de sensibilidade a minha).

Este facto seria suficiente para que neste momento a minha contagem de batimentos cardíacos não fosse a mais homogénea que me vem à memória mas, como não sei limitar os ataques de verborreia que por vezes me assolam e fazem com que da minha boca jorrem pacotes de disponibilidade instantânea, entro em mais dois números musicais.... SEGUIDOS!

Assim só necessito de me esbardalhar ( expressão magnífica esta não é?.. .esbradarlhar... gosto) no 1º acto a solo para encavalitar os outros dois!

Sejamos objectivos:

Cadeira - check
Suporte - check
Microfone - check
Luna - check
Cabo - check

Tenho tudo, abram-se as portas e "fiat lux".

A fila impedia já a circulação dos elevadores 2 andares abaixo. Esqueci-me da estimativa que fiz e perdi-me na contagem de cabeças. 20 minutos depois já estamos cheios. Bebidas circulam quase com a mesma velocidade que os comentários aos vestidos das "outras"... uma cereja que faltava no topo do bolo dos 7 actos... espírito crítico.

- Vamos começar? - Pergunta o Rodolfo. Faço um sorriso com meia vontade e aceno com a cabeça

- "Vamos lá ver como é que é para contar como é que foi" - Neste momento de aperto não me ocorreu mais nenhuma frase de distribuição automática.


Empurro a porta que não me recordo de ser tão pesada e ouço a voz do Rodolfo ampliada no sistema de som. Esforça-se por fazer atingir o clímax na multidão expectante que me espera do outro lado. O cheiro a backstage enche-me as narinas. É um cheiro difícil de descrever e esforço-me ao máximo para o colocar numa das prateleiras principais da minha memória. É uma mescla compreendida entre o mofo, o pó e o carbono da madeira que sei que mais tarde vai simbolizar um momento na minha vida. Faço uma oração enquanto ouço a apresentação no sistema de som, que me lança lá fora tal gladiador aclamado. Lanço as mãos à cortina e faço um ar confiante, de quem faz isto todos os dias.... esqueci-me do sorriso nos bastidores. Ficou ao lado do génio que gritava aos ouvidos mensagens de medo e pânico.

Aceno ao infinito. Com as luzes apontadas a mim de facto não consigo distinguir ninguém.

Luna ao colo, ajeito o microfone e tento ganhar tempo com afinações mínimas na guitarra que pela forma como treme está tão nervosa quanto eu. Resolvo lançar uma piada para quebrar o gelo.... o meu. Em jeito de kickstart, as mãos ganham vida e começam a tocar a música em tempo certo... agora já não posso voltar a trás.

O tempo está a chegar... aproximo a boca do microfone.

Aquele momento em que tudo se move mais lento... tudo o que ouço é a minha pulsação e a minha última respiração ampliada no sistema de som.






Começou.